É no mínimo sofrível o tipo de tratamento dispensado aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) que buscam assistência médica no Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá (PSMC). Idosos, crianças e deficientes são barrados no portão e, quando não vão embora sem uma avaliação adequada, passam por espécie de triagem feita pelos porteiros antes de entrar na unidade hospitalar, que é referência para todo o Estado.
"Meu filho está com clavícula quebrada e foi atendido aqui na sexta-feira. Engessaram mal e agora ele está com dor e não para de chorar. Fui à policlínica do Coxipó e não havia ortopedista. Vim para o pronto-socorro e não querem atender, nem deixar entrar", queixou-se Laura Viviane de Araújo, mãe de Weslan de um ano e três meses.
Junto com ela, o motorista Daniel Félix, 60 anos, que também procurava assistência na área de ortopedia era impedido de adentrar à unidade. "Já fui à policlínica do CPA I e não tinha ortopedista, chegou aqui não querem me atender, é uma situação horrível", lamentou. "A situação da saúde pública no Brasil é ruim, mas em Cuiabá, é muito pior. O mau atendimento faz a gente sofrer mais do que não ser atendido", indignou-se.
Minutos depois, chega mais uma paciente em uma cadeira de rodas. Vítima de um acidente de trânsito ocorrido em outubro passado, Juliane Jesus, 19 anos, contou que passou por uma cirurgia no pronto-socorro e o médico solicitou a ela que retornasse para avaliar a necessidade de uma nova operação. "Ainda não sei se vou entrar, estou aguardando uma resposta do porteiro", comentou.
Em pouco mais de 15 minutos, várias outras pessoas não tiveram o acesso à unidade liberado e saíram do local revoltadas. Esta situação foi observada ontem pela reportagem do Diário, uma semana após o fim do movimento grevista e de demissão dos médicos do pronto-socorro, que está em reforma.
De acordo com o presidente do Conselho Regional de Medicina (CRM), Arlan de Azevedo, este tipo de controle tem que ser feito com muito cuidado e bom senso. "Tem que estabelecer um fluxo de atendimento alternativo", disse. Não se pode correr o risco de uma pessoa chegar ao pronto-socorro com infarto e morrer no portão por não conseguir entrar. Há exceções e as pessoas precisam ser bem orientadas, caso contrário, a entrada tem que ser liberada", acrescentou.
Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que existe um fluxo de atendimento diferente no pronto-socorro, que desde o início da reforma atende somente os casos de urgência e emergência, ou seja, em que há risco de morte.
Ao comentar a falta de equipamento para broncoscopia no PS, Azevedo observou ainda que há uma sobrecarga muito grande de pacientes nas policlínicas para poucos médicos. Indagado sobre o caso do garoto, Arlan explicou que habitualmente a fratura de clavícula é benigna, mas que há situações que podem ter complicações.

