NOTÍCIA | Crise bancária

Presidente do Banco Central do Paraguai renuncia a pedido de Peña em meio à crise do banco digital ueno

Governo abre processo de resolução da instituição, que tem cerca de 3 milhões de clientes; Ministério Público pede investigação criminal e ordena a prisão de oito pessoas

Por: Reuters - Daniela Desantis
Publicado em 04 de Novembro de 2026 , 08h41 - Atualizado as 08h55


César Olmedo/Reuters

O presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), Carlos Carvallo, apresentou nesta terça-feira (3.11) sua renúncia ao cargo, atendendo a um pedido do presidente Santiago Peña. A saída ocorreu no mesmo dia em que as autoridades abriram o processo de resolução do banco digital ueno, medida voltada a proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro.

Peña afirmou ter solicitado o afastamento em razão de fatos surgidos ao longo do dia. A Procuradoria paraguaia pediu a abertura de investigação criminal sobre o caso e determinou a prisão de oito pessoas ligadas ao banco. Carvallo, que comandou o ueno até agosto de 2023, informou que permanecerá no cargo durante o processo de resolução da instituição, mas, em entrevista coletiva, disse que deixar a presidência ajudará a reduzir a polêmica em torno do BCP e permitirá que o banco central e a Superintendência de Bancos trabalhem sem pressões políticas e da imprensa.

O caso aumentou a pressão sobre o governo e ameaça a imagem de destino atrativo para capital estrangeiro que o Paraguai vinha construindo, com forte presença de investidores do Brasil. O banco central e Carvallo já vinham sendo criticados por parlamentares pela forma como fiscalizaram o ueno e pelos vínculos da instituição com o presidente, que foi sócio do grupo controlador do banco até março de 2025.

Em frente às agências fechadas, clientes, entre eles aposentados que recebem benefícios do Estado pelo ueno, aguardaram ao longo do dia para tentar acessar suas economias. Um deles, Manuel Cáceres, morador de Ñemby, na região metropolitana de Assunção, disse que muita gente passou a manhã na mesma situação, cobrando acesso ao dinheiro depositado.

Medidas do governo

Peña anunciou acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia nacional para pagar os depositantes. Segundo ele, a lei também deve assegurar o retorno de recursos públicos e de valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e de outros fundos de pensão estatais. A Superintendência de Bancos nomeará auditores para verificar a situação patrimonial do ueno.

O presidente e o banco central classificaram o episódio como um caso isolado, que não indicaria problemas no sistema financeiro como um todo. Peña afirmou ainda que os responsáveis deverão responder perante a Justiça, sem exceções e sem privilégios.

Investidores em alerta

Controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez, o ueno administra cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos no país. O banco cresceu rapidamente, de uma fintech local de nicho para uma instituição de porte médio, em trajetória comparada à de plataformas digitais como Monzo e Nubank.

Nos últimos meses, a instituição passou a ser alvo de escrutínio dos reguladores por suspeitas de empréstimos excessivos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez, o que preocupou investidores e pressionou os títulos do banco com vencimento em 2031 e os papéis soberanos paraguaios. Parlamentares também pediam, havia meses, a demissão da cúpula do BCP, após rejeitarem um relatório sobre o banco que consideraram incompleto. O Grupo Vázquez e o ueno não responderam de imediato aos pedidos de comentário.

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