Caminhão da Guaxe tomba em ponte e despeja piche no rio que abastece Colniza
Captação municipal fica a cerca de quatro quilômetros do ponto do acidente, e a cidade entrou em racionamento sem prazo para o abastecimento voltar ao normal.
Um caminhão-tanque da Construtora Guaxe tombou sobre a cabeceira de uma ponte na MT-418 e despejou parte da carga de piche no rio que abastece Colniza, no noroeste de Mato Grosso, na tarde de sexta-feira (10).
Como a captação de água do município fica cerca de quatro quilômetros abaixo do ponto do acidente, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) interrompeu o bombeamento e a Prefeitura decretou racionamento. Até a esta manhã deste sábado (11), não havia previsão para o retorno do fornecimento.
Um tanque, dois produtos
O veículo transportava produto asfáltico e tombou de um jeito que jogou boa parte da carga direto para dentro do curso d’água. Registros feitos no local ainda na sexta mostram o tanque enegrecido preso sobre a estrutura da ponte, com o piche escorrendo pela lateral e uma mancha descendo a correnteza. A ponte fica num trecho de mata cortado pela MT-418, fora da área urbana de Colniza.
O piche não se comporta de forma uniforme na água. Uma fração boia na superfície. A outra, ao entrar em contato com o rio, ganha densidade e afunda, alojando-se no leito. É essa parte submersa que transforma a limpeza num problema mais longo, porque não basta conter o que está por cima: o produto do fundo escapa das barreiras montadas na lâmina d’água.
Captação cortada
Colniza depende do rio para abastecer a cidade, e o ponto de captação do DAE fica poucos quilômetros abaixo de onde o caminhão caiu. Com o piche na correnteza, o bombeamento foi cortado para impedir que o produto alcançasse a rede e chegasse às torneiras.
A Prefeitura de Colniza pediu à população que “faça o uso consciente da água nos próximos dias” e, em vídeo oficial, avisou que “será necessário realizar racionamento temporário no fornecimento de água”. A recomendação foi “economize água, evitando desperdícios e utilizando-a apenas para atividades essenciais”. Segundo o comunicado, o abastecimento pode ficar comprometido até o início da semana.
Como a água distribuída vem justamente do rio atingido, o corte no bombeamento se traduziu rápido em pressão baixa e falta d’água em parte da cidade. A Prefeitura informou que passaria a divulgar novas atualizações pelos canais oficiais conforme o andamento dos serviços.
Barreiras montadas ainda na noite de sexta
Foram instaladas barreiras de contenção atravessadas no leito, para segurar o piche e frear o avanço rio abaixo. Funcionários da Construtora Guaxe passaram a noite retirando o produto e continuavam no local na manhã de sábado, recolhendo o piche em sacos plásticos e passando peneiras para separar o resíduo da água.
O trabalho se espalhou por mais de um ponto do rio. Perto da mata, junto à ponte, as imagens mostram sacos plásticos com o produto recolhido, deixados entre as folhas secas da margem. Mais próximo da área urbana, na altura da Rua Gabriel, uma barreira reforçada com sacos de areia represava a água barrenta enquanto um trabalhador de camisa da empresa peneirava a superfície.
Participaram da operação, ao lado do DAE e da Guaxe, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros. Boa parte do esforço se concentrou nas margens, onde o produto mais viscoso se acumulou junto à vegetação e às raízes.
O que a Sema-MT ainda precisa medir na água
O tamanho do dano ambiental ainda depende de laudo. As equipes aguardavam técnicos da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) para coletar amostras e avaliar a contaminação do rio, tanto na superfície quanto no fundo, onde se aloja a fração densa do piche. A extensão atingida rio abaixo, o efeito sobre peixes e vegetação e o prazo de recuperação do manancial ficam para essa avaliação.
Até a chegada dos técnicos, a contenção seguia manual e mecânica: retirada do que boiava na superfície e recolhimento do que havia encalhado entre as raízes e as folhas da margem, ensacado ali mesmo à beira d’água.
Dois dados que costumam abrir uma apuração de acidente ambiental seguiam em aberto: nem o volume derramado nem a causa do tombamento haviam sido informados até o fechamento desta reportagem.
A retomada da captação depende de dois passos ainda em curso, a retirada completa do produto e a avaliação técnica da Sema-MT. Enquanto isso não se resolve, a cidade segue com o consumo restrito ao essencial e sem data para voltar ao normal.
O outro lado
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